COMENTÁRIO AO
IIIº LIVRO DAS SENTENÇAS
DE PEDRO LOMBARDO
IIIº LIVRO DAS SENTENÇAS
DE PEDRO LOMBARDO
- Distinção XXV, Q. I, A. 2 -
Se a vida contemplativa
consiste somente
em um ato do entendimento.
consiste somente
em um ato do entendimento.
PRIMEIRA QUESTÃO
EM PRIMEIRO LUGAR, parece que a vida contemplativa consiste somente em um ato do entendimento, já que o objetivo desta vida está em alcançar a verdade. Ora, a verdade pertence somente ao entendimento, de modo que se segue que a vida contemplativa consiste somente em um ato do entendimento.Ademais, a vida contemplativa tem sido chamada, pelos homens santos, de um estado de lazer. Aristóteles também a descreveu como um feriado. Ora, o lazer e a isenção do trabalho são opostos à ação, a qual deriva da vontade. De um modo semelhante, portanto, a vida contemplativa parece ser oposta à ação procedente da vontade, e consiste somente no entendimento. |
que é desimpedida de todo negócio humano, e se delicia somente no amor de Deus". |
E ademais, assim como a vista está para o entendimento, assim o sabor pertence ao apetite. São Gregório, porém, escreve que
confere um sabor interior da felicidade futura". |
SEGUNDA QUESTÃO
PARECE, ENTRETANTO, que a vida contemplativa consiste em uma operação da razão, porque a vida contemplativa é uma vida humana, e assim deve ser conduzida de um modo humano. Ora, pertence ao modo dos homens agirem segundo a razão, como animais racionais, e portanto a vida contemplativa consiste principalmente no raciocínio.Ademais, a vida contemplativa consiste principalmente no conhecimento das coisas divinas. Mas as coisas invisíveis de Deus |
compreendidas a partir das coisas que foram feitas", |
Mais ainda, Ricardo de São Vítor escreve que
na contemplação varia de muitos modos. Ora eleva-se das coisas inferiores para as superiores; ora desce das superiores para as inferiores; ora procede da parte para o todo, ora do todo para a parte; ora argumenta a partir de uma verdade maior, ora a partir de uma menor". |
Porém, ao contrário, São Bernardo sustenta que
na medida em que o último refere-se mais à inquisição, enquanto que a primeira é a verdadeira e certa visão da mente". |
Ademais, Aristóteles sustenta, em sua Ética, que
assemelhamo-nos a Deus". |
TERCEIRA QUESTÃO
FINALMENTE, PARECE QUE todo ato da inteligência pertence à vida contemplativa. Pois, assim como há uma proporção entre a vida ativa e as coisas a serem feitas, há também uma relação entre a vida contemplativa e as verdades a serem conhecidas. Todos os atos, porém, que dizem respeito à primeira pertencem à vida ativa, de onde que também todos os atos da última pertencem à vida contemplativa.Ademais, a vida contemplativa, de acordo com Aristóteles na Ética,da Filosofia". |
renunciando ao mundo, deleita-se de viver somente em Deus". |
Ademais, a vida contemplativa e a felicidade contemplativa parecem dizer respeito ao mesmo objeto. Ora, a felicidade contemplativa consiste apenas na consideração do ser mais nobre e inteligível, que é Deus, conforme afirma Aristóteles na Ética.
PRIMEIRA SOLUÇÃO
RESPONDO À PRIMEIRA QUESTÃO dizendo que a vida sobre a qual estamos agora falando consiste naquela operação para a qual o homem é principalmente destinado, para alcançar a qual ele remove todos os impedimentos e busca e persegue todas as coisas que favorecerão o seu adiantamento. Esta faculdade deve ser a vontade, cuja função é aceitar um curso de ação humano em vez de outro, qualquer que seja esta ação. Ora, como a vontade é o motor das demais faculdades da alma, deve possuir uma relação para com o objeto e para com os atos das demais faculdades somente na medida em que eles possuem uma bondade por si mesmos, pois cada ato próprio de uma faculdade é o seu bem. Deste modo, a vida contemplativa consiste em um ato do entendimento precedido de algum modo pelo desejo.Como, porém, uma operação é, de algum modo, um intermediário entre a pessoa que age e o objeto, como perfeição do cognoscente e ela mesma aperfeiçoada pelo objeto que a especifica, assim a contemplação pode ser desejada de dois modos. |
ali também estará o teu coração". |
No entanto, apesar disto, a contemplação consiste essencialmente em um ato do entendimento; pressupõe a caridade, porém, pelo motivo explicado. É assim que encontramos São Gregório dizendo que
e o amor do próximo com toda a nossa força, e repousa da atividade exterior de tal modo que agora, não mais agradando-lhe a atividade exterior, e tendo desprezado os cuidados terrenos, a alma é consumida pelo desejo de ver a face de seu Criador". |
Respondemos à segunda objeção dizendo que a vontade não é somente uma força motiva para os movimentos exteriores que são repugnantes ao estado de lazer, mas também é uma força motiva para os movimentos internos, até para o próprio movimento da inteligência. Aristóteles afirma, no terceiro do De Anima, que
equivocamente falando, porque são atos perfeitos e, portanto, assemelham-se mais a algo em repouso do que a algo em movimento". |
Como resposta à terceira objeção dizemos que embora os hábitos da vida contemplativa sejam intelectuais, suas ações podem ser preceituadas ou aprovadas pela vontade. Deste modo a contemplação consiste também nelas.
SEGUNDA SOLUÇÃO
À SEGUNDA QUESTÃO devemos responder que a vida contemplativa consiste na operação que o homem escolhe de preferência às demais. Trata-se, portanto, de um certo fim em relação a outras operações humanas, já que estas são feitas por causa daquela.Ora, assim como a investigação da razão procede de uma intuição da inteligência, já que no homem a investigação parte de princípios apreendidos pela inteligência, assim também ela termina com uma certeza da inteligência, quando as conclusões a que ela chega são reduzidas aos princípios sobre os quais repousa a sua certeza. A vida contemplativa, portanto, consiste principalmente no ato da inteligência, o que é implicado pela própria palavra contemplação, palavra que significa visão. O contemplativo, entretanto, se utiliza da razão discursiva para chegar àquela visão da contemplação que é o seu principal objetivo, e é este raciocínio que São Bernardo chama de inquisição.
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TERCEIRA SOLUÇÃO
EM RESPOSTA À TERCEIRA QUESTÃO, devemos dizer que a vida contemplativa dos homens santos pressupõe o amor do objeto contemplado do qual ela surge. Segue-se daqui que, como a vida contemplativa consiste na operação que é mais intencionada, deve ser também acerca do objeto mais amado, que é Deus. De onde que a vida contemplativa consiste principalmente em uma operação da inteligência acerca de Deus. Lemos, de fato em São Gregório que
A própria palavra contemplação significa aquele ato principal pelo qual o homem contempla a Deus em si mesmo, enquanto que especulação designa melhor o ato pelo qual alguém vê a Deus, como em um espelho, nas coisas criadas. Do mesmo modo, a felicidade do contemplativo de que os filósofos falam também consiste na contemplação de Deus. De fato, conforme diz Aristóteles em sua Ética,
Quanto à primeira objeção, deve-se dizer que não há nenhuma ordem natural entre os atos da vida ativa como há entre os atos da vida contemplativa. Portanto, não se pode dizer com rigor que a vida ativa consiste principalmente em algum ato único. Em relação a um homem individual, porém, a vida ativa consistirá principalmente no ato que ele mais freqüentemente pratica, na medida em que alguns dão maior atenção às obras de justiça, outros às de auto domínio, e assim sucessivamente. À segunda objeção respondemos que Aristóteles, na autoridade mencionada, refere-se à Filosofia estritamente considerada, isto é, o conhecimento das coisas divinas, que é chamada pelo nome especial de Filosofia Primeira. Nossa resposta à terceira objeção é que embora o contemplativo ocasionalmente considere aqueles gêneros de contemplação que Ricardo de São Vítor enumera, a vida contemplativa, no entanto, não consiste principalmente neles. Fonte:http://www.cristianismo.org.br/st-3sn25.htm |
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